A Ordem Rosacruz: Uma Escola de Liberdade Tendo certo número de questões lhe sido um dia feitas a respeito do funcionamento da AMORC e sobre a filosofia rosacruz, Serge Toussaint, Grande Mestre da Jurisdição de Língua Francesa, concluiu a entrevista resumindo sua concepção com as seguintes palavras: A <a href=”https://amorc.org.br/quemsomos/”>Ordem Rosacruz</a> é uma Escola de liberdade… O que poderiam representar essas palavras? No decorrer da reflexão, elas pareciam ter um grande alcance sobre a razão de ser da Ordem Rosacruz e o sentido do processo que é proposto ao buscador. Este artigo visa partilhar essas reflexões a respeito da liberdade e se inicia, portanto, com um convite a se considerar como os ensinamentos rosacruzes ensinaram ao místico a exercer sua liberdade. Examinemos inicialmente essa expressão que qualifica a AMORC como uma escola de liberdade. A noção de escola remete à de aprendizado. Uma escola é uma instituição onde se adquire uma instrução ao se desenvolver competências através de um ensinamento graduado. A matéria ensinada aqui em questão é a liberdade. Esse ponto de vista pode inicialmente suscitar assombro: seria a liberdade o fruto de um aprendizado? Somos livres pelo próprio fato de nossa condição humana ou devemos adquirir essa liberdade? Alguns talvez pensarão que a liberdade é algo que não tolera bem os meios-termos: ou se é livre, ou não se é… No espírito da Declaração Universal dos Direitos do Homem,Declaração Rosacruz dos Deveres do Homem é clara a esse respeito e estipula, no artigo 3º, que todo indivíduo tem o dever de respeitar o outro sem distinção de raça, de sexo, de religião, de classe social ou de qualquer outro elemento aparentemente distintivo, implicando que toda pessoa é titular das liberdades fundamentais, como a liberdade de consciência, de religião, de opinião, de expressão, de reunião pacífica e de associação. Existe, portanto, um consenso, ao menos nas sociedades democráticas, quanto ao fato de a liberdade estar ligada à condição humana. A apreciação do Grande Mestre revela um paradoxo aparente: se somos livres por direito natural, por que deveríamos aprender a liberdade? A resposta a esta pergunta reside sem dúvida no uso que fazemos dela ou nas condições que devemos estabelecer para tornar efetivo esse potencial de liberdade. Mas o que é exatamente a liberdade? O ser humano é verdadeiramente livre ou no fundo não é mais que um escravo dos diversos condicionamentos que interiorizou? Ele pode exercer de verdade aquilo a que chamamos o “livre-arbítrio”? A busca pela liberdade se confunde com as origens do pensamento filosófico. Desde a Antiguidade muitos filósofos se dedicaram a essas questões fundamentais, assim como fazemos hoje em dia, e por vezes – como foi o caso de Sócrates – tiveram de pagar com suas vidas. A questão da liberdade é indissociável da noção de escolha. “Ser” livre é inicialmente “ter” a escolha. Como dizia o escritor Paulo Coelho, a liberdade não é a ausência de compromisso, mas a liberdade de escolha. Se a liberdade está ligada à noção de escolha, é preciso então admitir que ela implica também a ideia de responsabilidade. Só é livre, definitivamente, aquele que é responsável por suas escolhas… Existem, todavia, diversas formas de liberdade e é importante que especifiquemos aqui a qual vamos nos referir. Existe a liberdade de direito jurídico, como aquela que é garantida por uma Carta; há também a liberdade de agir segundo nossa própria vontade e, finalmente, há a liberdade interior, ou livre-arbítrio, que consiste em ser mestre de si mesmo, sem ser escravo de suas paixões, de seus desejos ou de suas crenças limitadoras. A liberdade consiste até mesmo em poder rejeitar a evidência e escolher o mal ao invés do bem. Como evocado mais acima, ou se é livre ou não se é… Suponhamos que era à liberdade interior que o Grande Mestre fazia alusão; é a esta forma de liberdade que o leitor é convidado a refletir aqui: uma liberdade que nenhuma pessoa ou circunstância exterior pode nos tirar e que conservaríamos mesmo no fundo da prisão mais sombria. Alguns filósofos contemporâneos consideram que, para pensar livremente, é preciso se desfazer de todas as ideologias que condicionam o pensamento. É isso que pode ser chamado de “teoria da terra queimada”, em que toda forma de herança é considerada um entrave do qual é preciso se desvencilhar. Ter um passado, uma memória e uma origem nos torna inaptos a exercer nossa liberdade de pensar? Ainda que pensar por si mesmo exija um distanciamento reflexivo face aos modos, às tendências e às ideologias, parece muito improvável que uma espécie de vacuidade de referências possa conduzir quem quer que seja a pensar livremente. Todos os tiranos partilharam o fantasma da imposição do seu “novo ano zero” do conhecimento fazendo uma limpa de tudo o que precedeu sua dominação, com as consequências desastrosas que nós conhecemos. A verdade é que nós não pensamos a partir do vazio. Nossas construções mentais têm por matéria as aquisições prévias da linguagem, nossas referências culturais e nossas experiências passadas cujos traços são conscientes ou inconscientes. Levando nossa reflexão mais adiante, poderíamos nos perguntar se nossa herança biogenética não determina inteiramente nossos atos. O filósofo Baruch Spinoza, em sua obra sobre a ética, enuncia da seguinte forma a sua recusa do livre-arbítrio tal como preconizado por Descartes: Basta-me por enquanto enunciar esse princípio com o qual todo o mundo deve convir, a saber, que todos os homens nascem na ignorância das causas e que um apetite universal de que eles têm consciência os leva a procurar aquilo que lhes é útil. Uma primeira consequência desse princípio é que os homens julgam ser livres e não pensam de forma alguma nas causas que os dispõem a desejar e a querer. Os deterministas concluem disso que nós acreditamos agir ao passo que “somos levados a agir” por impulsos – eles próprios oriundos de causas muitas vezes desconhecidas e incontornáveis. Para Spinoza, Deus é a causa primeira determinante da qual nós somos um efeito, e nossa última liberdade reside, segundo ele, no Amor constante
Diálogo imaginário com Sócrates
Sr. Sócrates, filósofo ateniense, fale-nos sobre o seu nascimento… Nasci em Alopeke, subúrbio de Atenas, na Grécia, por volta de 470-469 antes de Cristo. E seus pais? Meu pai chamava-se Sofronisco, era escultor e trabalhou com Fídias, decorador de edifícios em Atenas. A minha mãe chamava-se Fenarete, reconhecida por ser hábil parteira da cidade. A nossa casa situava-se num distrito sossegado e confortável, tínhamos uma horta com muitas árvores frutíferas e muitas oliveiras. Tínhamos como vizinhos Aristides, Tucídides e Críton, que foi um grande amigo. Como eram os tempos antigos da sua Grécia? Quando nasci, Atenas se tornava uma potência política, econômica e militar. Tempos de ouro para os gregos; Em pouco tempo, várias personalidades marcaram a história da humanidade no campo das artes, da filosofia, da oratória, da política e das ciências naturais. Sócrates, como foi a sua juventude? Minha família tinha modestos recursos, mas recebi boa educação, me relacionei com notáveis inteligências da época, frequentei o Liceu onde se cultivava o físico e o intelectual. Frequentei a escola de música de Cosmos, para me aperfeiçoar no bailado e na cítara. Do que gostava nessa época? Tinha muitos amigos, mas minha beleza física não era das melhores… familiarizei-me com os antigos filósofos, Anaxágoras… apreciava andar sempre descalço e amava conversar a respeito dos problemas cosmológicos… E Xantipa? Minha esposa… casamos quando eu tinha 56 anos, já gordo e corpulento. Era um bonachão… e Xantipa uma garota ateniense aristocrática, de 20 anos de idade, alta e magra. No dia do nosso casamento não encontramos um carro puxado a bois. Seguimos a pé com um cortejo reduzido… Amo Xantipa, apesar dos nossos temperamentos diferentes. Tivemos três filhos: Lamprocles, Sofronisco e Menexeno. No dia em que recebi a sentença de condenação… Xantipa chorava muito e então lhe disse: – Por que choras por teu marido ser condenado injustamente? Deverias chorar se fosse condenado justamente! Sr. Sócrates, ocorre-lhe a lembrança de algum fato inusitado ou muito importante que influenciou nas suas escolhas? Sim. Por volta dos 38 anos de idade passei por uma crise interior… Certo dia fui visitar o templo de Apolo, em Delfos, onde estava escrito a máxima: “Conhece-te a ti mesmo”… E… A partir daí centrei meu pensamento e pesquisas no homem e não mais no cosmo. Por quê? O conhecimento de si mesmo e a dúvida, o questionamento, preparam-nos para o nosso encontro maior, no qual encontramos o caos doloroso ou a felicidade… O Senhor Criou a Teodicéia – a descoberta de Deus pela razão? Sim. O diálogo é o meu método. Possui três fases: a ironia, a maiêutica e a indução. Na ironia levo meus interlocutores através de perguntas a conhecerem-se mais… Na maiêutica procuro extrair as verdades… e na indução buscamos a essência universal contida no particular… O senhor percebe ainda hoje, em nossos tempos modernos, a influência das suas pesquisas e descobertas? Talvez no Direito, na Filosofia, na Psicanálise, na Psicologia, na Psiquiatria, nos livres pensadores… Outros? Sr. Sócrates, desejaria dizer mais alguma coisa? Neste momento recordo de meus pais… Sofronisco, escultor de estátuas… eu de pensamentos… Fenarete, parteira, da arte da obstetrícia… eu procuro sempre não dar minha opinião sobre qualquer assunto, não tenho a autoridade, tampouco a verdade… como a parteira ajudo, mas é você quem deve dar à luz os seus desejos… *O Frater Ademir Vieira dos Santos é Psicólogo. Referência: Brazil, Stella Telles Vital – A Divina Filosofia Grega, Curitiba, AMORC, 1989; Claret, Martin – O Pensamento Vivo de Sócrates, São Paulo.



