Por IRÈNE BEUSEKAMP-FABERT, SRC Há muitos anos que estou nesse mundo. Tinha cinco anos de idade quando fui à aula pela primeira vez. Aprendi, estudei mais e mais e agora sei tanto que já não sei o que sei. E assim como Montaigne, digo: “Que sei eu?”. Os exegetas de Montaigne por muito tempo pensaram que, através desse questionamento retórico, ele procurava exprimir seu ceticismo e suas desilusões. Ele ainda era um rapazinho imberbe e falava latim fluentemente. Mais tarde, estudará filosofia e direito. Viajou muito e ocupou cargos públicos. Contudo, é o fenômeno “ser humano” que absorverá cada vez mais o seu interesse. Foi assim que ele se recolheu ao seu castelo e se consagrou ao estudo do homem. Como vivia sozinho, tornou-se ele próprio o objeto de suas observações, as quais depositou em seus Ensaios. Era no silêncio que ele encontrava aquilo que para ele era o mais importante: seu Eu interior, ao qual chamava “fundo da loja”. Produziu muitos escritos sobre o homem na forma de ensaios e no entanto jamais soube quem ou o que é o homem: “Que sei eu?”. Apesar dos muitos anos de estudos, o homem permanecia para ele um mistério. Quanto às eventuais experiências espirituais no mais profundo de si mesmo, ele sempre preservou o silêncio. Se me permitirem, regressarei agora às minhas próprias experiências. De tudo aquilo que aprendi (por vezes eu ficava com a cabeça “recheada”), adquiri um saber consideravelmente extenso, mas aquilo que sei de verdade não vem daquilo que acumulei no meu cérebro, mas do mais profundo de mim mesmo, durante curtos ou longos momentos de silêncio puro – momentos em que tudo em nós se cala e nos quais parece que somos recobertos por um véu etéreo e quando, subitamente, nosso Mestre Interior se manifesta e confirma aquilo que um mestre disse há tanto tempo: “O Reino dos Céus está em vós”. O Mestre, o Mestre Interior, Deus. Há alguns meses escrevi uma meditação de palavras, expressões e frases que eu lia ou ouvia e que ficaram gravadas em meu coração. Ei-la: O Reino dos Céus está em vós. Adeptos da Senda, permiti-me vos saudar com essa perene afirmação. A ilusão atual do homem é superestimar o intelecto que tanto lhe acresceu e que tornou possível, graças a maravilhas tecnológicas, uma mudança total de suas condições de vida. A humanidade se encontra sob a empresa de um desenvolvimento tecnológico que parece não se deter. Novas descobertas são feitas em todos os domínios. O universo revela seus segredos à ciência e todas as riquezas e recursos de nossa Mãe Terra são usados e esgotados. O mundo já não está mais em equilíbrio. Ao passo que os países ocidentais, ávidos por Ter (já não se sabe mais conjugar o verbo “Ser”) são cada vez mais levados a adquirir produtos completamente inúteis, a outra parte do mundo sofre com a fome e permanece privada daquilo que há de mais essencial para a vida. Já é mais do que urgente que tomemos consciência da armadilha de nossa evolução intelectual e nos engajemos em novas veredas – veredas que se revelam cada vez mais e que foram indicadas em todos os tempos por sábios de todas as civilizações no âmbito de uma única ciência – a ciência da alma. Não é insueto que sábios conheçam tudo a respeito do menor dos insetos, que nem sequer podem ver a olho nu, e não saibam o porquê e o como de sua própria existência? Ou que geneticistas saibam tudo a respeito das plantas, animais e seres humanos e não se empenhem no mistério de seu próprio ser e nas particularidades de sua pessoa? Ou ainda que o homem atravesse o universo em todos os sentidos, pouse na Lua e, ainda assim, não possa encontrar o caminho que o conduz a si mesmo? “O Reino dos Céus está em vós”. Adeptos da Senda, permiti-me repetir essa mensagem secular. É a mensagem do sorriso infinito da Esfinge que se eleva calma e serena da areia do Egito; é a mensagem formulada em diferentes termos pelo místico alemão dos séculos XIII e XIV, Mestre Eckhart: “Deus está no centro do homem”. Tomás de Aquino e Jacob Boehme exprimiram a mesma coisa em longos escritos que nem sempre são fáceis de ler e que se baseiam na experiência verdadeira – uma experiência que também é possível para o homem desse novo século. Nossa época é justamente aquela em que os valores divinos ganham em clareza e em que a vida espiritual se torna tão marcante e tão real quanto à vida material. É a época em que o termo “iniciação” reencontra seu significado primordial: um começo, um novo começo. E assim deveria ser, uma vez que toda criatura é uma parte do Espírito original que está na origem de nosso mundo – o Espírito em que habitam o Amor eterno, a Sabedoria infinita e uma Paz indestrutível. Nas escolas de Mistérios dos países de civilização pré-cristã, a iniciação era considerada como um ato extremamente importante. No fim das cerimônias dos mistérios de Elêusis, na Grécia antiga, as últimas palavras que o iniciado ouvia eram: “Que a Paz esteja em ti”, e então ele retomava seu caminho, tendo a alma apaziguada e o coração em júbilo. A iniciação era para ele apenas um profundo despertar para aquilo que ele era na realidade; era a conquista de sua vida espiritual e aquele que não tivesse esta experiência não era um ser completo. Se esta experiência interior era possível dois mil anos antes de Cristo, também o é dois mil anos depois. Durante esses quatro mil anos a natureza fundamental do homem não mudou, nem tampouco sua busca a si mesmo, assim como acontece com o Adepto na Senda, que aspira ao reencontro com o Divino. Em sua verdadeira realidade, tal como ele foi e será para sempre, o homem é um ser espiritual, ainda que habite um corpo material. Nossos sentidos, que de alguma forma riem-se de nós, são a razão
A existência da alma
A existência da alma O ser humano não se limita a um corpo material mantido em vida por um conjunto de processos físico-químicos. Ele possui também uma faculdade extraordinária: a consciência. Ora, ao contrário do que pensam os ateus, ela não é produto apenas do cérebro. Do ponto de vista espiritualista, ela é um atributo da alma. É isso o que explica por que uma pessoa privada de suas funções cerebrais por causa de um gravíssimo acidente ou de uma doença degenerativa continua, além das aparências, a pensar e a sentir emoções. O fato de seu eletroencefalograma não acusar nada não significa que ela não tenha mais nenhuma consciência, mas apenas que ela está privada de sua fase objetiva, a qual depende efetivamente da atividade cerebral. Outro fato notável em todo ser humano: ele não tem consciência apenas de si mesmo, dos outros e do seu meio. Ele também tem consciência do bem e do mal, o que explica por que ele sente a consciência leve e a consciência pesada conforme aquilo que pensa, diz ou faz. Certamente, as noções de bem e mal são um tanto arbitrárias e podem variar de uma cultura a outra, mas sabemos em nossa alma e em nossa consciência” que alguns comportamentos são fundamentalmente bons, ao passo que outros são fundamentalmente maus a ponto de termos vergonha deles. O fato de sermos capazes de discernir uns dos outros e de nos conformarmos a uns mais do que a outros nos traz toda a problemática do livre-arbítrio e dá uma dimensão particular à nossa vida. Será possível provar a existência da alma? A priori, é impossível. Todavia, ao se considerar aquilo que o ser humano criou de mais belo e mais útil em âmbitos tão diversos tais como a arquitetura, a literatura, as artes, a ciência, a tecnologia etc., como pensar que ele tenha conseguido isso unicamente por meio de sua inteligência cerebral? Melhor ainda, ao se pensar nas emoções mais belas e nos sentimentos mais nobres que ele é capaz de sentir e expressar, como o maravilhamento, a compaixão, a fraternidade, a amizade e o amor, como não ver em tudo isso a presença de alguma coisa sublime e divina? Mas então: o que é a alma? Do ponto de vista rosacruz, é a energia espiritual que anima o ser humano, no sentido de que lhe dá vida e consciência. Como tal, ela impregna todas as células de nosso corpo, assim como o ar que preenche todos os cômodos de uma casa. Ao contrário do que ensina a maior parte das religiões, a alma não se situa num órgão específico, como o cérebro ou o coração, e nem tampouco no sangue. A ciência é atualmente incapaz de evidenciar essa energia ou mensurá-la, mas eu não me surpreenderia se ela um dia lograsse fazê-lo e que assim provasse a existência, em cada um de nós, de um corpo etéreo constituído de partículas espirituais. Outra questão se apresenta relativamente ao assunto da alma humana: de onde ela provém? Aos olhos da ontologia rosacruz, ela é uma emanação da Alma Universal, ou seja, da Alma que impregna o universo desde suas origens. Para retomarmos o que havíamos dito anteriormente, isso quer dizer que todo ser humano é um filho das estrelas, não apenas por causa dos elementos que constituem seu corpo físico, mas também pela essência espiritual que o anima. Esta é a razão pela qual em muitos escritos religiosos e também míticos está dito que o homem é uma alma vivente. Cada um de nós é, pois, um ser duplo e pertencente a dois mundos – não opostos, mas complementares: o visível e o invisível; tangível e intangível; material e imaterial. É precisamente essa dualidade que confere à nossa existência um objetivo transcendental. Para compreender o objetivo de nossa presença na Terra não devemos considerar agora a origem da alma humana, mas sua natureza como tal: ela é perfeita em essência, a exemplo da Alma Universal, designada pelos hinduístas e por alguns budistas pelo nome de Atman (pronunciado Atma em sânscrito). De fato, é nela que reside aquilo a que chamamos qualidades, ou, para retomarmos o termo caro a Sócrates, virtudes, tais como a humildade, a integridade, a generosidade, a tolerância, a benevolência etc. Se vivemos na Terra, é para nos conscientizarmos dessas virtudes e exprimi-las através de nosso comportamento, no contato com os outros. Em outras palavras, é para evoluirmos espiritualmente e atingirmos algum dia o estado de Sabedoria. É o que ademais ensinaram todos os Mestres e todos os Iniciados do passado, independentemente das épocas e dos lugares em que viveram. Certamente, a julgar pelo comportamento atual da maior parte dos indivíduos, seria possível duvidar de que o ser humano é perfeito em essência. É por isso que muitas pessoas, dentre as quais “filósofos”, estão convencidas de que, ao contrário, ele é imperfeito por natureza. Contudo, elas não podem negar que ele é capaz de se aprimorar. Isto pressupõe que haja nele “alguma coisa” que o incita a se tornar melhor, o que nos lembra as proposições de René Descartes: Como poderia eu saber que não sou perfeito se eu não tivesse em mim nenhuma ideia de um Ser mais perfeito que o meu, e através de cuja comparação eu posso conhecer os defeitos da minha natureza?
Os Cavaleiros Templários
Os Cavaleiros Templários Os Cavaleiros Templários tiveram origem nas Cruzadas da Idade Média. Como é de conhecimento geral, as Cruzadas foram uma série de expedições à Síria e à Palestina, esta última denominada Terra Santa. Consistiam de “devotos e intrépidos reis cavaleiros”, bem como clérigos, soldados e simples camponeses. Seu intuito era libertar ou recuperar a Terra Santa, a terra natal de Cristo, daqueles que os cruzados chamavam de “turcos infiéis”. Nesse período em particular, o cristianismo ocidental significava a Igreja Católica Romana; não havia outras igrejas cristãs conhecidas. Todas as religiões ou crenças não-cristãs, em conformidade com a intolerância que então prevalecia, eram consideradas pagãs e, seus seguidores, infiéis. No sentido literal, pagão é o indivíduo que não reconhece o Deus da revelação. Todavia, um pagão não é necessariamente ateu. Mas, na opinião dos cristãos daquela época uma pessoa devota que concebe Deus no sentido panteísta, ou como consciência universal, é pagã. Com toda certeza, todos os não-cristãos eram assim considerados. Parecia uma irreverência, um sacrilégio, para os cristãos, que locais relacionados com o nascimento do Cristo estivessem sob o domínio de alguma autoridade não-cristã. Pequenos bandos de peregrinos, durante anos antes das Cruzadas, haviam viajado para a Palestina, com o fim de visitar os santuários. Em sua devoção e primitiva crença, imaginavam que tais visitas lhes trariam uma graça espiritual, assegurando-lhes bênçãos especiais no outro mundo. Atravessaram eles regiões agrestes, onde praticamente não havia lei e ordem. E punham em risco a sua segurança, viajando principalmente a pé. Em conseqüência , eram assaltados, roubados, mortos por bandidos que os atacavam. Esses fatos, chegaram ao conhecimento da Europa Ocidental e da cristandade e tornaram-se incentivo para as cruzadas. Durante os séculos doze e treze, cada geração formou pelo menos um grande exército de cruzados. Além desses enormes exércitos, que às vezes chegavam a trezentos mil homens, haviam “pequenos bandos de peregrinos ou Soldados da Cruz”. Durante aproximadamente duzentos anos, houve um fluxo quase contínuo de reis, príncipes, nobres, cavaleiros, clérigos, e gente do povo da Inglaterra, da França, da Alemanha, da Espanha, e da Itália para a Ásia menor. Ostensivamente, essas migrações tinham fins religiosos, levando consigo, como já dissemos, muitos aventureiros, cujo objetivo era de explorar. Assassinos e ladrões viajavam para a Terra Santa e roubavam, pilhavam e violavam mulheres. Os muçulmanos, devotos e respeitadores da lei, cuja cultura era muito superior a da Europa na época, ficavam chocados com a conduta desses “cristãos”. Era de se esperar que protegessem suas famílias e propriedades desses saqueadores religiosos. Assim, por sua vez, matavam os peregrinos ou os expulsavam. Sem dúvida, muitos peregrinos inocentes perderam a vida por causa da reputação criada pela conduta de alguns de seus companheiros. Os povos não-cristãos do Oriente Próximo não podiam distinguir os peregrinos que tinham nobres propósitos daqueles cujos objetivos eram perversos. A Primeira Cruzada Tomando conhecimento desta situação, Papa Urbano II, em 1095, em Clemont, França, exortou o povo a iniciar a primeira grande Cruzada. Conclamou os cavaleiros e nobres feudais a cessarem a guerra que travavam entre si e socorressem os cristãos que viviam no oriente. “Tomai a estrada para o Santo Sepulcro; arrebatai a região à raça perversa e sujeitai-a ao vosso domínio”. Consta que, quando o Papa terminou de falar, a vasta multidão que o escutava clamou quase uníssono: “É a Vontade de Deus!”. Esta frase tornou-se depois o grito de guerra da heterogênea massa que formou o exército da Cruzada. Aqueles homens estavam convictos de que estavam obedecendo à vontade de Deus, de modo que brutalidade, assassínio, estupro e pilhagem, nas terras do Oriente, estavam justificados por sua missão. Era impossível aqueles milhares de homens levarem consigo alimento suficiente para a viagem, visto que esta durava vários meses, em condições muito difíceis. Portanto, eram eles obrigados a buscar sustento nas terras que invadiam. Muitas pessoas inocentes do Oriente, não-cristãs, eram assassinadas, seu gado lhes era tomado e suas casas saqueadas, para o sustento dos cruzados, que sobre elas se abatiam como nuvem de devoradores gafanhotos. Naturalmente, a retaliação vinha rápida e violenta. Muitos cruzados foram mortos pelos húngaros, que reagiram para se proteger contra a depredação causada pelas hordas que passavam por sua região. O espírito de avareza ou cobiça aproveitou-se das circunstâncias. Muitos cruzados procuravam seguir para a Palestina e a Síria por mar, a fim de evitar a viagem mais longa, toda feita por terra. Ricos mercadores das prósperas cidades de Veneza e Gênova tramaram conceder aos cruzados “livre’ passagem para a Síria e a Palestina. Mas exigiam dos peregrinos o compromisso de exclusividade de comércio em qualquer cidade por eles conquistadas. Isto permitiria a esses mercadores ocidentais manter centros comerciais no Oriente, obtendo então excelentes produtos do seu artesanato. As jóias, a cerâmica, a seda. A especiaria, mobília e os bordados do Oriente eram superiores a tudo o que se produzia na Europa Ocidental da época. Das cruzadas emergiam muitas curiosas ordens religiosas e militares. Duas das mais importantes foram os Hospitalários e os Templários. Essas ordens “combinavam dois interesses dominantes da época, o monge e o soldado”. Durante a primeira Cruzada foi formada, de uma associação monástica, a ordem conhecida como os Hospitalários. Seu objetivo era de socorrer os pobres e enfermos dentre os peregrinos que viajavam para o Oriente. Cruz de Malta: o emblema Posteriormente, a Ordem admitia cavaleiros, além dos monges, e depois se tornou uma ordem militar. Os monges usavam uma cruz em sua veste e andavam com uma espada à cinta. Lutavam, quando necessário, embora se dedicassem principalmente em socorrer os peregrinos doentes. Receberam doações de terras, nos países do Ocidente. Também construíram e controlaram mosteiros fortificados, na terra Santa. No século treze, quando a Síria, principalmente, foi evacuada pelos cristãos, os Hospitalários mudaram sua sede para a ilha de Rodes e, mais tarde, para Malta. Esta Ordem ainda existe e seu emblema é a Cruz de Malta. A outra ordem tinha o nome de Cavaleiros Templários, ou “Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão”. Esta ordem
Deus
“Senhor, de Tuas mãos flui todo o bem. Todas as bênçãos e graças nos chegam de Ti. Com Teus dedos escreveste a letra da Natureza que ninguém pode ler, a menos que seja ensinado em Tua escola.“Senhor, de Tuas mãos flui todo o bem. Todas as bênçãos e graças nos chegam de Ti. Com Teus dedos escreveste a letra da Natureza que ninguém pode ler, a menos que seja ensinado em Tua escola. Deixa‑nos, portanto, erguer nossos olhos a Ti, ó Senhor, da forma como os servos olham para as mãos de seu senhor e as servas para as de sua senhora, para que Tu possas nos ajudar! O Senhor, nosso Deus, quem não Te louvaria, quem não Te glorificaria, a Ti, Rei da Glória?! Pois tudo vem de Ti e tudo Te obedece e a Ti deve voltar novamente, sendo recebido no Teu amor ou em Tua ira. Nada pode Te escapar, tudo deve servir Tua honra e glória. Só Tu, e ninguém mais, és o Senhor. Fazes o que queres com Teu berço poderoso, nada pode Te escapar. Só Tu ajudas o humilde, o brando, o pobre, os que a Ti são devotados com todo o seu coração, em sua hora de necessidade; os que se humilham no pó perante a Ti, para esses, és dadivoso. Quem não deve a Ti louvar, a Ti, Rei de toda a Glória? Ninguém há como Tu, cuja morada está no céu e num santo, virtuoso e aflito coração. Ó Grande Deus, Tu és tudo em tudo! Ó Natureza! Tu que és tudo do nada, que mais posso dizer?! Nada sou, por mim só, mas sou tudo em Ti, e em Teu tudo eu vivo do nada então, vive Tu em mim! E assim, traz‑me ao Tudo, em Ti! Amém.”* * SÍMBOLOS SECRETOS DOS ROSACRUZES dos séculos X VI e XVII, Biblioteca Rosacruz, AMORC, Volume Especial, Editora Renes Ltda, 1978, pág. 66, Rio de Janeiro, Brasil.
Eu Sou no Ser Cósmico
Eu Sou no Ser Cósmico -Por Zaneli Ramos, FRC EU… que é? O corpo? Não. Evidentemente, ele é meu, mas não é eu. Por isso digo, “meu corpo”. Então, tenho de procurar a natureza desse EU em alguma “coisa” imaterial que consiga sentir ou perceber em mim mesmo. Se não sou o corpo, que sou no corpo que uso? O pensamento? Também não. Pensar é algo que EU faço, algo que se produz em mim. Evidentemente, o pensamento é meu, mas não é eu. Por isso digo, “meu pensamento”. Então, tenho de procurar a natureza desse EU em alguma outra “coisa”… imaterial? Se não sou o corpo, nem o pensamento, que sou no corpo que uso e no pensamento que produzo? Emoção. É isso que sou? Também não. EU me emociono. Emoção é algo que ocorre em mim, ou comigo. Por isso digo “minha emoção”. Então, tenho de procurar a natureza desse EU em alguma outra “coisa”… imaterial? Se não sou o corpo, nem o pensamento, nem emoção, que sou no corpo que uso, no pensamento que produzo e na emoção que sinto? Percepção. É isso que sou? Ainda não. Percepção é algo que resulta da minha interação com aquilo que percebo. Por isso digo, “EU percebo”. Então, tenho de procurar a natureza desse EU em alguma outra “coisa”… imaterial? Se não sou o corpo, nem o pensamento, nem emoção, nem percepção, que sou no corpo que uso, no pensamento que produzo, na emoção que sinto e na percepção que tenho? Sentimento. Um evento emocional? Então não adianta. Já pensei isso no caso da emoção. Uma sensação… sem caráter emocional, como uma espécie de “fato técnico”? Também não adianta. Já pensei isso no caso da percepção. Por isso digo, “EU sinto”. Então, tenho de procurar a natureza desse EU em alguma outra “coisa”… imaterial? Se não sou o corpo, nem o pensamento, nem emoção, nem percepção, nem sentimento, nem sensação, que sou no corpo que uso, no pensamento que produzo, na emoção que sinto e na percepção e na sensação que tenho? Outra “coisa”? Que mais posso observar e constatar em mim, nesse EU que digo que sou? Imaterial? Como posso observar e constatar isso? É… curioso… intrigante… perturbador? Se me perguntam, “quem é você?”, posso responder muita coisa. Se me perguntam “que é você?”… engasgo; ou respondo: “EU, ora!” Mas há uma saída. Respondo: “um ser humano”. Melhorou. O problema é que então me perguntam: “que é um ser humano?”. Respondo: “um ser que usa um organismo físico ou sistema biológico – um corpo – para pensar, ter emoções, percepções e sensações. Percebo então que andei em círculo. O problema persiste, porque EU é um caso particular de “um ser”. O problema que existia para definir a natureza do indivíduo – EU – existe para definir a natureza da espécie. Pensar e ter emoções, percepções e sensações – e, mais obviamente ainda, agir – são funções do ser humano e não aquilo que ele é. Como fico então? Bem, como não tenho mais onde nem como procurar a natureza do EU, ou do ser humano, sou obrigado a concluir que essa natureza é transcendente. Que significa isto? Que não posso pensá-la nem conhecê-la por emoção, percepção, ou sensação. Sou. Mas não posso conhecer o que sou, não posso saber o que sou; só posso ser o que sou. No entanto, isso que sou não pode ser nada; tem de ser algo. Se fosse nada, não existiria – e EU existo. Não sei o que sou, mas sei que sou… porque penso, tenho emoções, percepções e sensações, e ajo. Concluo então que EU é algo que usa um sistema biológico para pensar, etc. Algo… o quê? Um “buraco”. Visualizo a figura: Esse EU, então, é algo transcendente, um “não-nada” que não posso conhecer, que só posso ser! Eu sou no Ser Cósmico… Sou… que é ser? Existir? Só? Sinto que há mais. A caneta existe; só. Eu também existo; mas há mais: sou. Existir é a idéia nuclear de ser, porém, há mais. Ser é existir e ter percepção disto – consciência! Não sei o que sou, mas sei que sou – um “não-nada” transcendente. Sou… Ser, aqui, é verbo. E verbo, que é? Ação, manifestação, fenômeno. Sou fenômeno de ser! E nisso tive começo e vou ter fim! Mas, naquilo em que sou um “não-nada” transcendente… Eu sou no Ser Cósmico… Que é Ser Cósmico? Ser, aqui, é substantivo. Um ente, algo, uma “coisa” e não manifestação, ação, ou fenômeno. E esse ente ou SER substantivo é necessariamente infinito e eterno. Único e a essência de tudo. Cósmico indica isto. Com efeito, se ele tivesse começo e fim, que existiria antes e depois dele? Nada? Absurdo! Nada, não pode existir. Se existe, não é nada; é algo. Se é nada, não existe. Ser Cósmico, portanto, é O Ser – um só, único e uno – que é essência, fonte e sede de tudo. O único ser substantivo; todos os outros seres são verbos – fenômenos de ser. Todo e qualquer outro ente, toda e qualquer outra “coisa”, só pode ser fenômeno de ser – verbo – desse Ser único, infinito e eterno – cósmico. Então, nele – e somente nele – tudo é UM, infinita e eternamente! Em si mesmo, todo e qualquer “outro ser” é fenômeno, verbo, teve começo e vai ter fim, é finito e temporal. Por isso sinto e penso e creio: Eu sou no Ser Cósmico… e do Ser Cósmico… manifestação. Sou fenômeno de ser no Ser Cósmico, no SER, único, infinito e eterno. Nele sou substantivo; em mim mesmo, sou verbo. Nele sou infinito; em mim mesmo, sou finito – acabo, no Ser que não acaba. Nele sou eterno; em mim mesmo sou temporal – passo, no Ser que não passa. Visualizo a figura: O SER, sem começo nem fim, infinito e eterno. Glorioso! Eu? Em mim mesmo – no meu ego – finito e temporal. Inglório. Em mim mesmo, não posso ter
Gratidão pela Vida
Gratidão pela Vida Poucas pessoas se expressam de modo semelhante, pois não existem duas pessoas exatamente iguais. Nosso modo de viver, nossa forma de pensar, nosso comportamento em relação aos outros, tudo isso revela uma parte de nossa evolução e compreensão individuais, uma parte da nossa educação, instrução e experiências de vida. Somos diferentes e, no quadro geral da vida, podemos sentir como a Criação se revela na diversidade que contém. Em todas as manifestações do Divino, e especialmente na natureza, essa diversidade é inegavelmente óbvia. No entanto, ninguém vive apenas para si mesmo. Uma pessoa só conseguiria essa façanha se estivesse sozinha no planeta. Cada uma de nossas atividades diárias, direta ou indiretamente, sempre afeta uma ou mais pessoas. É, portanto, essencial que cultivemos uma compreensão de nós mesmos, de nosso ambiente e de todo o Cosmos para podermos experimentar a alegria de viver. A cada dia que passa, expresse sua gratidão pela vida, por uma vida que permite que você desfrute e use plenamente sua existência terrena partilhando o que você recebe, manifestando sua espiritualidade e compreendendo a divindade com a qual você está infundido. Dê graças sem cessar por este dia de trabalho em que você tem a oportunidade de expressar suas faculdades internas e forças latentes. Quando vão chegando as férias, sinta uma imensa gratidão pelo descanso que vai ter de suas tarefas diárias, muitas vezes repetitivas. Muitos de nós temos uma tendência a pensar que a vida é feita apenas de tristezas e de dificuldades. Nunca suponha que os outros são mais felizes do que você, que são mais abençoados que você. Um dos objetivos na vida deveria ser o de sair ativamente por aí em busca da felicidade, na verdade, fazendo com que a felicidade aconteça. Na realidade, a felicidade está mais perto de você do que suas mãos e pés, portanto, agarre-a. Ela quer ser agarrada! Não é necessário ser rico, poderoso ou estar em altas posições para ser feliz. A felicidade não corresponde à riqueza material. Provavelmente você já observou que muitas vezes é o mais humilde na sociedade que encontra a felicidade nas coisas mais simples, coisas que normalmente nem levamos em consideração. Infelizmente criamos necessidades que de início nada mais eram que desejos, e os supérfluos podem facilmente se tornar uma dessas necessidades. O Cósmico nos deu tantos privilégios e possibilidades que, se fôssemos plenamente conscientes deles, seria difícil para nós sermos infelizes com relação ao que somos e ao que recebemos. Todos fomos abençoados com dons, mas nem sempre nos apercebemos disso e continuaríamos reclamando mesmo se fôssemos donos do universo. Esquecemos tudo o que temos à nossa disposição para lamentarmos as coisas que não temos. Seja grato, portanto, pelos dons que você já tem e, assim, abrirá as portas para receber ainda mais bênçãos. Mas nunca suponha que basta simplesmente agradecer. Pergunte-se sempre se você realmente merece o que recebe. Não é verdade que muitas vezes você recebe sem dar? Será que sempre partilhamos com os outros as nossas alegrias e a nossa gratidão? Será que retribuímos na mesma proporção que recebemos? É grande o número de pessoas que pedem ajuda do Cósmico, mas poucos são aqueles que, de fato, expressam sua gratidão. Ouça a ainda tênue voz dentro de você que o impulsiona a dar graças pela abundância da vida que lhe pertence. E não agradeça simplesmente pelas suas vantagens materiais, mas também pela capacidade de sentir simpatia, de compreender os outros, de confiar e de esperar por um amanhã melhor. Seja grato se descobriu uma forma de ajudar os outros. Seja grato por merecer ter recebido o sentido do tato, da visão e da audição, que são a manifestação do trabalho divino diário que consiste em ‘sentir conscientemente’ a gratidão pelo que se tem. Logo vai descobrir que seu copo não só está cheio, mas ‘transbordando’. Quando acorda pela manhã – e várias vezes durante o dia – retire-se para a solidão de seu Eu e expresse do fundo de seu coração a gratidão pela vida que o anima. Seja grato pela saúde que tem e pela família que o cerca. E seja grato também pelo seu grande dom: a possibilidade de partilhar com os outros. Numa onda de gratidão, peça ao Cósmico que o inspire, que lhe dê forças e o apoie em todos os seus esforços. Então, você vai ficar receptivo aos poderes infinitos e vai se colocar em tal harmonia que a Essência Divina do Cósmico vai de fato infundir seu ser. Todo dia é uma oportunidade de meditar sobre os privilégios, o conhecimento e a compreensão que estão à sua disposição. Hoje no trabalho, amanhã nas férias, ou a qualquer momento, expresse sua gratidão por todas essas bênçãos cósmicas… E esteja sempre imbuído do verdadeiro espírito de reconhecimento e de gratidão. “Ensina ao teu semelhante a gratidão e ele receberá benefícios; ensina ao teu semelhante a caridade, e ele receberá amor” – A Vós Confio Arquivos Rosacruzes
O Colégio da Fraternidade
Muitos dos leitores já ouviram falar de um ilustrador britânico, William Heath-Robinson (1872-1944), que desenhava projetos de máquinas inacreditáveis com eixos, rodas, botões e alavancas e de outras que pressupostamente fariam limpeza e muitas outras tarefas. A ilustração aqui apresentada poderia ser tomada como sendo uma das invenções de Heath-Robinson. Ela aparece com o título Colégio da Fraternidade numa publicação de Daniel Mogling, também chamado Theophilias Schweighart, intitulada Speculum Sophicum Rhodo-stauroticum. Ela foi desenhada, e talvez mesmo publicada, por volta de 1604, dez anos antes do Fama Fraternitatis, normalmente considerado como o primeiro livro anunciador da presença dos Rosacruzes. Este manifesto também é citado como a primeira publicação indubitavelmente rosacruz. Todavia, ele não surgiu subitamente do nada. As ideias que nele encontramos são fundadas em bases sólidas. Os escritos de Mogling mostram claramente sua convicção rosacruz. Além de seus escritos, encontramos indícios visuais suficientes e evidentes em nossa ilustração para mostrar seus laços com o Rosacrucianismo. Trata-se em particular da rosa e da cruz que se encontram dos lados da porta desse castelo móvel. Schweighart aconselha aqueles que buscam a senda rosacruz dizendo que sejam pacientes e que perseverem, como as pombas de Noé, que vemos alçando voo da arca, à esquerda no fundo da imagem, e que coloquem suas esperanças em Deus e em suas preces. Para começar, vejamos o simbolismo do castelo, antes de nos dedicarmos a certos elementos que o rodeiam nessa ilustração. Os castelos são o símbolo quase universal do refúgio interior – de um local onde a alma se comunica intimamente com Deus, com o Absoluto ou, segundo os rosacruzes, com o Cósmico. Ao lado de seus túmulos piramidais, os faraós ordenavam a construção de templos funerários a que chamavam de “palácios para milhões de anos”. Assim como os túmulos reais, eles eram destinados a durar eternamente, a fim de ligar o destino da obra humana à dos Deuses. Nestes “palácios”, os pais do rei finado podiam cultuá-lo e comemorar eternamente sua existência, comungando com todos os deuses necessários e fazendo-lhes oferendas. Nos salmos da Bíblia, um castelo, ou cidade fortificada, é utilizado como metáfora da própria Divindade. Isso leva a metáfora a outro plano. Ao invés de ser simplesmente um lugar onde é possível comungar com a Divindade, o castelo torna-se efetivamente o próprio Deus. O Mestre Eckhart diz, em um de seus sermões: “Existe na alma um castelo no qual nem o próprio olhar de Deus pode penetrar”. E ele prossegue explicando que isto se deve ao fato de que se trata do castelo de pura Unidade. Nos pensamentos judaico e cristão, e ainda em outros mais, o castelo representava a calma imóvel no cerne da natureza humana. No tratado taoísta O Mistério da Flor de Ouro, é dito que devemos fortificar e defender o Castelo Primitivo que é a casa de Hsing, ou seja, do Espírito. Os castelos são habitualmente construídos como lugares fortificados no cume de colinas, onde eram mais eficientemente protegidos. Assim como as casas, eles evocam um sentimento muito forte de proteção e de segurança. No entanto, seu posicionamento os torna isolados e longínquos, o que, dada a sua inacessibilidade, os torna ainda mais atraentes. De fato, parece que uma parte da natureza humana consiste em desejar aquilo que é inatingível. Nas pinturas, a Jerusalém Celeste é representada como um castelo com torres e ameias localizado no alto de um pico de uma montanha. Ainda que de difícil acesso, uma vez tendo-o alcançado, o peregrino lá encontra segurança e proteção. O Rosacrucianismo, simbolizado pelo colégio fraternal, ensina, entre outras coisas, como entrar em comunhão com as influências cósmicas. Essa parte interior de si, a qual é acessada durante a meditação e a contemplação e que conduz à comunhão com o Cósmico, também é remota e de difícil acesso. Porém, uma vez alcançada, todas as contingências exteriores se desvanecem e pode-se então repousar conscientemente na proteção do Cósmico até o retorno ao estado que precedia a meditação. Na ilustração de Schweighart, observamos que esse castelo tem certos laços com a Divindade. A palavra hebraica “Yahweh”, ou “Ieschouah”, está inscrita no céu, indicada como o Leste, acima de nosso castelo, assim como os escudos dos quatro defensores posicionados em cada uma das ameias dos quatro ângulos. Fato notável é que esses defensores não estão armados com espadas, mas com folhas de palma, que lembram a entrada do Cristo em Jerusalém, anunciada pelas mesmas palmas. Simbolicamente, somos levados a compreender que a existência provém do Cósmico e que esse dom é tão importante para cada um individualmente quando foi a entrada de Jesus na Cidade Santa para a população cristã. A Cidade Modelo, símbolo dos ideais utópicos, pode ser percebida pelas janelas do castelo, onde um irmão procura no globo o lugar de sua última existência humana. Um braço que se projeta de um dos ângulos com uma espada na mão indica que toda luta para atingir a realização não se produz pela entrada no castelo. Quando se progride na Senda, devesse estar sempre em guarda, a fim de se evitar certas emboscadas. Ainda que essas armadilhas não sejam numeradas, é claro que deve haver um elo com um “poço de falsa opinião”, pois a espada o domina. Como é muito difícil ser sincero para consigo mesmo e para com seus próprios ideais, é provavelmente isto que é sugerido aqui. A inspiração cósmica brilha sobre um peregrino, no canto inferior direito da ilustração. Sua espada e seu chapéu repousam no solo, próximos à bolsa contendo seusparamentos e seus sapatos. As inscrições em latim indicam que ele declara ser ignorante mas que roga ao Pai que o ilumine. Mas por que ele traz uma âncora nas mãos, já que não tem nenhum barco ou uma grande extensão d’água em vista? A âncora, último recurso dos marinheiros num mar revolto, tornou-se mais ou menos o símbolo da esperança. Como ela segura o barco, indica a firmeza e a fé infalível. Ela simboliza a ideia de que é possível pôr fim a uma vida muito turbulenta ancorando-se firmemente na fonte
Diálogo imaginário com Sócrates
Sr. Sócrates, filósofo ateniense, fale-nos sobre o seu nascimento… Nasci em Alopeke, subúrbio de Atenas, na Grécia, por volta de 470-469 antes de Cristo. E seus pais? Meu pai chamava-se Sofronisco, era escultor e trabalhou com Fídias, decorador de edifícios em Atenas. A minha mãe chamava-se Fenarete, reconhecida por ser hábil parteira da cidade. A nossa casa situava-se num distrito sossegado e confortável, tínhamos uma horta com muitas árvores frutíferas e muitas oliveiras. Tínhamos como vizinhos Aristides, Tucídides e Críton, que foi um grande amigo. Como eram os tempos antigos da sua Grécia? Quando nasci, Atenas se tornava uma potência política, econômica e militar. Tempos de ouro para os gregos; Em pouco tempo, várias personalidades marcaram a história da humanidade no campo das artes, da filosofia, da oratória, da política e das ciências naturais. Sócrates, como foi a sua juventude? Minha família tinha modestos recursos, mas recebi boa educação, me relacionei com notáveis inteligências da época, frequentei o Liceu onde se cultivava o físico e o intelectual. Frequentei a escola de música de Cosmos, para me aperfeiçoar no bailado e na cítara. Do que gostava nessa época? Tinha muitos amigos, mas minha beleza física não era das melhores… familiarizei-me com os antigos filósofos, Anaxágoras… apreciava andar sempre descalço e amava conversar a respeito dos problemas cosmológicos… E Xantipa? Minha esposa… casamos quando eu tinha 56 anos, já gordo e corpulento. Era um bonachão… e Xantipa uma garota ateniense aristocrática, de 20 anos de idade, alta e magra. No dia do nosso casamento não encontramos um carro puxado a bois. Seguimos a pé com um cortejo reduzido… Amo Xantipa, apesar dos nossos temperamentos diferentes. Tivemos três filhos: Lamprocles, Sofronisco e Menexeno. No dia em que recebi a sentença de condenação… Xantipa chorava muito e então lhe disse: – Por que choras por teu marido ser condenado injustamente? Deverias chorar se fosse condenado justamente! Sr. Sócrates, ocorre-lhe a lembrança de algum fato inusitado ou muito importante que influenciou nas suas escolhas? Sim. Por volta dos 38 anos de idade passei por uma crise interior… Certo dia fui visitar o templo de Apolo, em Delfos, onde estava escrito a máxima: “Conhece-te a ti mesmo”… E… A partir daí centrei meu pensamento e pesquisas no homem e não mais no cosmo. Por quê? O conhecimento de si mesmo e a dúvida, o questionamento, preparam-nos para o nosso encontro maior, no qual encontramos o caos doloroso ou a felicidade… O Senhor Criou a Teodicéia – a descoberta de Deus pela razão? Sim. O diálogo é o meu método. Possui três fases: a ironia, a maiêutica e a indução. Na ironia levo meus interlocutores através de perguntas a conhecerem-se mais… Na maiêutica procuro extrair as verdades… e na indução buscamos a essência universal contida no particular… O senhor percebe ainda hoje, em nossos tempos modernos, a influência das suas pesquisas e descobertas? Talvez no Direito, na Filosofia, na Psicanálise, na Psicologia, na Psiquiatria, nos livres pensadores… Outros? Sr. Sócrates, desejaria dizer mais alguma coisa? Neste momento recordo de meus pais… Sofronisco, escultor de estátuas… eu de pensamentos… Fenarete, parteira, da arte da obstetrícia… eu procuro sempre não dar minha opinião sobre qualquer assunto, não tenho a autoridade, tampouco a verdade… como a parteira ajudo, mas é você quem deve dar à luz os seus desejos… *O Frater Ademir Vieira dos Santos é Psicólogo. Referência: Brazil, Stella Telles Vital – A Divina Filosofia Grega, Curitiba, AMORC, 1989; Claret, Martin – O Pensamento Vivo de Sócrates, São Paulo.









